15. Histórias

Os mitos são reminiscências da humanidade, narrações de fatos que atravessaram o tempo. Algumas registradas por mãos hábeis, outras preservadas por antigos contadores de histórias, os bardos.

“Durante as festas que os mitos e as lendas da sociedade céltica eram retransmitidos por poetas profissionais chamados de bardos; estas primeiras expressões da cultura céltica não sobreviveram, pela simples razão de que os bardos, na tradição oral, confiavam na memória para manter a sua filosofia religiosa druídica. Os bardos cantavam os grandes feitos de homens famosos, reis e heróis, em versos épicos, acompanhados pelos sons melodiosos da lira. A música original e grande parte da poesia épica desapareceram quando os mitos foram registrados pelos cristãos. Contudo, algumas das histórias sobreviveram e constituem a substância da literatura celta, a que chamamos de mitologia céltica.” Trecho descrito no livro “Introdução à Mitologia Céltica” de David Belligham.

Como vimos, os celtas não escreveram suas histórias, deixaram apenas ensinamentos orais que, posteriormente, foram registrados por historiadores greco-romanos e, mais tarde, por monges copistas. Júlio César em De Bello Gallico, relata que os povos que hoje consideramos como celtas nunca se descreveram como tal, pois o termo “celta” é uma designação recente, datado a partir do século XVIII. Então, podemos dizer que a maioria dos textos que conhecemos atualmente tiveram a interpretação dos povos vencedores e da própria igreja, entre outros interesses.

Além disso, devemos ter o cuidado de não olharmos para os povos celtas, apenas de forma nostálgica e romanceada, como aconteceu com o aparecimento do movimento “Crepúsculo Celta” no final do século XIX e que continua, até os dias de hoje, influenciando a nossa percepção em relação a eles.

Apesar de todo o encantamento que suas lendas nos despertam, pois é inegável a emoção que essas histórias nos trazem, que vão desde o folclore até os achados arqueológicos e que nos ensinam muito sobre essa maravilhosa cultura, estamos falando também de um povo bélico, guerreiro e com enorme requinte artístico em joalheria. Por essa razão que não sei explicar ao certo, resta-nos apenas resgatar o conhecimento que nos foi deixado, tanto ancestral, como os que foram traduzidos graficamente através do tempo por meio dos contos e mitos celtas.

Finalizo com uma pequena história de um autor anônimo irlandês, do século XIV ou XV, que fez referências a cor púrpura/roxa e amarela (tal como as cores do nosso site), uma analogia ao Outro Mundo como indicativo de realeza e soberania. A seguir no texto:

“A tempestade passara e o ventou soprava agora suavemente; os guerreiros do mar içaram a vela e o barco verteu menos água. O vasto oceano amainou, as ondas serenaram e tudo ficou resplandecente e calmo. Aves de diferentes espécies, nunca vistas antes, enchiam de sons o arredor. À frente deles apareceu uma terra de forma graciosa e praias agradáveis; ao avistá-la, os marinheiros rejubilaram. Aproximaram-se e entraram num belo estuário com verdes colinas sobranceiras às praias de seixos prateados, em cujas águas cintilavam a esplêndida e forte cor púrpura do gracioso salmão; lançaram o olhar à volta e ficaram encantados com os belos cursos de água que serpenteavam através das florestas tingidas de púrpura.

Tadhg, o príncipe irlandês de Munster, de pé na proa da embarcação, dirigiu-se aos seus homens: – “Essa seguramente é a ilha dos nossos sonhos, meus guerreiros; abençoadamente terá frutos e todas as coisas mais adoráveis; vamos fazer-nos à praia, pôr o barco em terra e dar-lhe o tempo suficiente para secar depois de fustigado pela tempestade.”

Vinte corpulentos guerreiros, comandados por Tadhg, seguiram em frente, deixando vinte para trás, a guardar o barco; e o espantoso era que, tendo embora suportado o vento e a chuva forte e os limites do frio e da fome, não sentiam vontade de comer, nem necessidade de fogueira neste calmo lugar. Era bastante e mais que suficiente respirar o incenso das árvores, esplendorosas e rodeadas de flores purpúreas. Tadhg conduziu-os para floresta ao lado do caminho e se encontraram num pomar de magníficas macieiras raiadas de púrpuras e de carvalhos com folhas de matizes encantadores e de aveleiras repletas de avelãs de um amarelo resplandecente. – “Que coisa maravilhosa me ocorreu”, disse Tadhg aos seus guerreiros. “Temos o inverno em casa, enquanto aqui reina o verão.”

Na verdade, não tinha fim os lugares maravilhosos que iam descobrindo naquela terra.

Deixando o pomar, chegaram a um bosque sem sombras, onde viram bagas redondas cor de púrpuras, do tamanho de cabeça de homens, que desprendiam maravilhosas fragrâncias; e as aves que se alimentavam das bagas surpreenderam os homens; que tiveram de olhar de novo, pois eram brancas com cabeças púrpuras e os bicos dourados. Entoavam cantigas de menestréis, enquanto comiam as bagas à vontade, sendo a sua música lamentosa e, no entanto, tão tranquilizante, que podiam levar os guerreiros feridos a adormecer suavemente.”

Bênçãos do Céu, da Terra e do Mar!

Rowena A. Senėwėen ®
Pesquisadora da Cultura Celta e do Druidismo.

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