16. Poesia

A arte da transmissão oral de modo versado ou cantado é um atributo bárdico associado ao Druidismo. A poesia que eleva e inspira a alma, despertada através da inspiração poética, tal como uma bênção, pode ser profética ou até mesmo nefasta na forma de sátiras ou maldições.

Bardos e poetas, conhecidos como “Fili” na tradição irlandesa, utilizavam os atributos da poesia para expressar sentimentos ou encantamentos, além de descrever batalhas ou fatos históricos. Talvez, por causa da estrutura da composição poética ou das rimas, que soam bem aos ouvidos, facilitando a memorização dos contos e dos mitos, que por sua vez, eram passados adiante.

A memória, assim como qualquer habilidade humana, pode ser nata, como acontece com um virtuose ou adquirida, quando treinada. A respeito da memorização, Endovelicon nos deu algumas dicas em sua postagem sobre a prática mnemônica, que consiste em um conjunto de técnicas que faz uso de associações através de símbolos. A psicologia de Gestalt tem grande influência nos estudos mnemônicos e é amplamente utilizada até os dias atuais.

Usaremos, novamente, o ciclo mitológico irlandês para citar alguns exemplos de poesia evocativa, envolta num clima de mistério e retórica, recorrente nos clamores ardentes da batalha, conhecidas como “roscanna” – um canto mágico para conjurar as névoas de invisibilidade (féath fiath) e o furor dos guerreiros.

Durante a invasão do Milesianos, Amergin recitou um poema antes de desembarcar nas terras da Irlanda, em um mar agitado pela magia druídica das Tuatha Dé Danann, a uma distância de nove ondas – que simboliza o limiar entre os mundos – invocando a soberania na posse da terra.

“Eu canto que possamos recuperar as terras de Erin,
Nós que temos vindo sobre as altas ondas do mar
Até esta terra cujas montanhas são grandes e extensas,
Cujas correntes das águas são claras e numerosas,
Onde as matas são abundantes e carregadas de frutas,
Seus rios e cachoeiras são extensos e brilhantes,
Os lagos são amplos e profundos,
Repleto de fontes, por razões elevadas!
Que possamos ganhar poder e domínio sobre suas tribos.
Que tenhamos uma assembleia para tomar decisões em Tara.
Que Tara seja a residência régia dos filhos de Mil.
Que o Milesianos possam ser os vencedores deste povo.
Que a nossa âncora fixe os navios em seus portos.
Possa Eremon ser o primeiro monarca
E os descendentes de Ir e Eber, reis poderosos.
Eu canto que possamos recuperar as terras de Erin!”

Este encantamento provou ser eficaz, pois uma calmaria se fez sobre o mar. Outro exemplo, no final da Segunda Batalha de Magh Turedh, Morrighan faz a seguinte profecia (fáistine) – tradução inspirativa:

“Paz para o céu
Céu para a terra.
Terra sob o céu,
A força para todos,
Um copo bem cheio de mel;
Hidromel em abundância,
Verão no inverno,
Paz até o céu…
Pois não verei um mundo
Que será ser caro para mim:
Verão sem flores,
Gado sem leite,
Mulheres sem modéstia,
Homens sem valor,
Tribos sem lei,
Conquistas sem um rei…
Mar sem um mastro
E uma mata improdutiva.
Tolo julgamento dos velhos.
Precedentes falsos de advogados.
Cada homem um traidor,
Cada filho um ladrão.
O filho vai para a cama de seu pai,
E o pai para a cama de seu filho.
O filho vai enganar o seu pai,
E a filha enganar a sua mãe…”

Finalmente, citaremos Brighid, a Senhora da poesia, que trazia bênçãos ao lar, mas ao mesmo tempo, como Bríg Ambue, inspirava os bardos a compor maldições cantadas ou sátiras, chamadas de “Bríocht Cáinte”. A sátira poética, também, está presente durante a Segunda Batalha de Magh Turedh, quando o poeta Coirpre amaldiçoou o tirano Bres pela falta de hospitalidade em sua casa, que logo ficou com o rosto cheio de bolhas e acabou devolvendo o trono à Nuada.

Essa é a força mágica e poética das palavras!

Rowena A. Senėwėen ®
Pesquisadora da Cultura Celta e do Druidismo.

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