Três erros pagãos (e como evitá-los)

Original: 3 Pagan Mistakes (and how to avoid them).
Por Lora O’Brien[1] & Tradução de Ávillys mac Mórrigan.
Disponível em The Irish Pagan School. Tradução autorizada pela autora.

Nota do tradutor:

Esse pequeno, grande puxão de orelha da irlandesa Lora O’Brien precisa ser lido, refletido e compreendido em seu ponto e essência por todo praticante do Paganismo Moderno. O texto é como uma conversa, com uma pitada bem forte de bronca e carregado de alguns exemplos pessoais da autora. Mas ainda assim suave, como um verdadeiro puxão de orelha de um amigo que muito nos quer bem…

O texto pode parecer duro, demasiadamente incisivo e talvez inflexível em alguns pontos… Isso porque esses temas nos chocam, pois em alguma escala estamos fazendo ou vivendo esses processos e sua constatação nem sempre é fácil de ser ouvida. Mas como a autora diz: é preciso que ouçamos!

Entenda, antes de começar o texto, que as críticas se referem às pessoas que fazem tais práticas e que, conscientemente e deliberadamente continuam a praticá-las. Como Lora O’Brien sempre diz: “conheça mais para fazer melhor”. Nesse lema, poderemos compreender que a diferença entre o erro, a tentativa e o acerto está na busca por conhecer mais sobre o processo e fazer melhor a cada passo.

Indistintamente, o texto vai passar pelo tema da apropriação cultural… Tema complicado e sutil que precisa ser tratado com veemência e ao mesmo tempo contextualização. Lora O’Brien sempre defendeu que a prática espiritual não carece de ancestralidade para ser vivenciada (desde que haja o reconhecimento de si naquela prática), mas igualmente sempre advogará para que essa vivência seja contextualizada e não apropriada.

Em muitos momentos, como oriundos da cultura ocidental que somos, fizemos e fazemos apropriações culturais. A diferença vai de novo no lema clássico da autora: “conheça mais para fazer melhor”. Ao passo que tomamos consciência dessa prática e a contextualizamos, passamos a fazer uma contemplação cultural e não mais a malfadada apropriação. O limiar estar em não apropriar para si um status, título ou história de que você não possui e, igualmente, não negar ou rejeitar sua própria história, cultura e relações únicas no processo.

Tenho uma palestra virtual que fala também sobre esse tema, se se interessar, acesse: O bosque para além do tempo: nossos rumos no mundo atual, no Youtube[2]. Enfim, deixo com vocês as palavras da própria Lora O’Brien!


3 erros pagãos (e como evitá-los)
3 Pagan Mistakes (and how to avoid them)

 Por Lora O’Brien. Tradução de Dartagnan Abdias.

Você pode ter cometido esses erros no passado e ter se sentido mortificado – e talvez até tenha sentido que não poderia retornar ao coven/grupo/evento nunca mais.

Ou talvez você esteja cometendo algum desses erros (ou todos) e ainda não se deu conta, até agora.

Mas veja, nós todos passamos por isso, eu asseguro. Esse artigo não é sobre envergonhar ou culpar.

É como eu sempre digo (na verdade não fui eu quem disse primeiro)…

“Faça o melhor que souber até saber mais. E quando souber mais, faça melhor.” (Maya Angelou)

O foco aqui é para nós – coletivamente, como uma comunidade – saber mais e então fazer melhor. Vamos juntos?

O primeiro dos erros pagãos: saber demais

Ou ao menos achar que você sabe.

Quando você lê seu primeiro livro no Paganismo, pode parecer que as coisas finalmente estão se encaixando para você. Assistir a alguns vídeos no Youtube, sobre o assunto, e você fica entusiasmado com o quanto as coisas parecem encaixar e fazem sentido.

Você sabe sobre isso! Você entendeu! E você vai contar ao mundo sobre isso!

Muitos de nós nos sentíamos diferentes nossa vida toda, mesmo nunca entendêssemos o porquê.

Até agora, e eu entendo. Aprender sobre Paganismo pode abrir um mundo completamente novo para você – deveria, na verdade!

A questão é, existe um mundo completamente novo. E você certamente não pode aprender sobre ele rapidamente, em qualquer que seja a profundidade de conhecimento ou experiência, apenas de leituras de alguns livros de autores populares do Neopaganismo, ou acumulando tempo de vídeos assistidos no Youtube.

Eu amo livros pagãos! E vídeos no Youtube feitos por pagãos!

Eu escrevo e crio ambos, na verdade. Eles são um importante ponto inicial para as pessoas descobrirem e começarem a aprender.

Mas existe muito mais do que isso.

Além do fato de que vai levar tempo e experiência para você efetivamente começar a praticar seu paganismo: desenvolver relações com deuses e deusas, aprender como meditar, descobrir o tipo de paganismo que melhor se encaixa com você e onde você está…

Você também precisa estar lendo e estudando além do que os autores neopagãos estão te contando, e realmente ficar de olho nesses erros pagãos comuns enquanto você avança…

Por exemplo: aprender sobre ecologia, história, linguagem, arqueologia, política, justiça social, e liderança é importante para todo caminho pagão que você quiser trilhar por algum período de tempo.

Então, por favor, aproveitei o entusiasmo e a empolgação que vem com esse lugar que você encontrou no Paganismo Moderno… Mas, também entenda que há mais do que você provavelmente já sabe.

Não diga às pessoas o que elas devem ou não devem fazer, e, por favor, não presuma que você sabe mais do que qualquer outro que você conhecer ao longo do caminho.

A maioria dos antigos no caminho (Elder) são sensatos, mais reservados sobre o que eles fazem e a quanto tempo estão praticando o paganismo. Então, sinceramente… não presuma nada.

Segundo dos erros pagãos: saber de menos

… E esperar que tudo seja entregue a você, apenas porque você quer ou anseia por isso.

Eu faço uma tonelada de conteúdo pagão – tanto gratuito quanto pago – para que as pessoas tenham acesso às fontes e recursos certos para que elas possam aprender o que elas precisam saber.

Ainda assim, todo dia, eu recebo e-mails pessoais, perguntando questões como quanto eu cobraria por uma consulta livre para mentoria, se eu fosse responde-los individualmente.

Suas questões em geral não são novas para mim.

Eu já ouvi muito disso nesses mais de 25 praticando conscientemente o paganismo, muito desse tempo sob o olhar público de um jeito ou de outro, realizando serviços para a comunidade.

Muitas dessas perguntas se tornaram tão frequentes, que eu criei uma postagem em meu Blog ou um vídeo em meu canal de Youtube, ou um curso na The Irish Pagan School especificamente para eu não ter que fazer o mesmo trabalho repetidamente.

E, claro, eu não sou a única.

Vemos muitos desses erros pagãos em primeira mão – diariamente, em alguns casos – e autores como Morgan Daimler, Benebell Wen e o Time do Story Archaeology são incrivelmente generosos com seu tempo e sabedoria. Eles têm prontamente respondido muitas das suas questões, e conversado sobre experiências e problemas muito similares aos que você está experienciando.

Mas, há uma predominante necessidade de validação que verdadeiramente precisa parar.

Respire, e faça uma pesquisa no Google, antes de você deixar comentários em Blog ou vídeos no Youtube de alguém, ou em grupos do Facebook, ou diretamente em suas caixas de e-mail pessoais.

Leia um outro livro. Medite ou oracule (divinação) sobre isso, e veja o que seus guias podem compartilhar com você, Pesquise fora do Paganismo e busque respostas em problemas similares em contextos diferentes.

Mesmo que você se junte a um grupo ou organização pagão, esse é essencialmente um caminho solitário que você trilhará na maioria das vezes sozinho.

Você pode ter professores e guias, claro, e quanto mais você souber, melhores serão suas escolhas a esse respeito. Isso é totalmente normal.

Mas, em última análise, cabe a você encontrar seu próprio caminho.

E isso dá trabalho.

Terceiro dos erros pagãos – pegando o que você quiser

Você sabia que eu chegaria aqui, certo?

Relacionado aos dois itens acima e merecendo sua própria discussão, nós temos esse enorme problema no Paganismo Moderno… Apropriação Cultural.

NÃO SAIA DAQUI.

Quero dizer. Isso pode ser difícil de ouvir, mas e se esse é o caso que você mais precisar aprender?

Você deve pensar que você está engajado em Apreciação Cultural quando, na verdade, é Apropriação Cultural. Você não deve saber a diferença. Você deve dizer para você mesmo que você nem mesmo se importa.

Mas você deveria se importar.

Paganismo não acontece isoladamente. Uma das crenças fundamentais é de que tudo está conectado, energeticamente e praticamente, nesse planeta em que habitamos.

O que você diz, e o que você faz, importa.

Ou você acredita que sua energia ou sua magia pode afetar o mundo e as pessoas a sua volta, ou você não acredita.

(Se você não acredita nisso, então, talvez, o Paganismo não seja de fato para você. Reavalie isso).

Se você acredita nisso, então você tem algumas responsabilidades para considerar.

Existe um grande artigo no site da Universidade de Utah sobre o Halloween (apropriado de um festival pagão irlandês), no qual nos dá uma clara definição que nos é útil aqui:

“Apropriação cultural pode ser definida como uma ‘escolha seletiva’ ou uma seleção de certos aspectos de uma cultura, ignorando seu significado original com o propósito de diminuí-la como uma tendência. Apreciação é honrar e respeitar a outra cultura e suas práticas, como um meio de adquirir conhecimento e compreensão”[3]

Muito se fala disso nas atitudes de validação mencionadas acima. Isso é comum e normal em algumas sociedades *cof Estados Unidos e Inglaterra cof*, mas está na hora de superarmos isso.

Você não pode estender sua mão e pegar o que quiser e usar isso do jeito que quiser, só porque você não tem aquilo na sua própria vida ou cultura.

Você não tem esse direito, apenas porque você não tem algo, mas o deseja.

Isso é ainda mais importante quando você está lidando com espiritualidade.

Aqui está outro problema, que eu particularmente considero, quando se trata de pagãos modernos procurando espiritualidades indígenas com culturas das quais eles não são nativos:

“As culturas adotam aspectos umas das outras o tempo todo. Isso é bom quando ambas as culturas estão trocando igualmente – o que chamamos de “Intercâmbio Cultural” –, mas se houver um desequilíbrio de poder entre as culturas, então não é uma troca igual. Se uma cultura minoritária está adotando aspectos de uma cultura dominante ou colonizadora para se ajustar ou sobreviver à opressão, isso é chamado de ‘Assimilação Cultural’. Se for uma cultura dominante ou majoritária tomando aspectos da cultura minoritária e tirando-os do contexto dessa cultura e lucrando com eles de alguma forma que a cultura original não é livre para fazer, então é chamado de ‘Apropriação Cultural’.”[4]

Esse “lucrar com eles” é muitas vezes a chave para saber se sua prática é ética ou não.

Muitas vezes vemos um tomar, tomar, tomar uma atitude muito unilateral no Neopaganismo, em que alguém vai e aprende qualquer coisa sobre uma cultura indígena e, em seguida, decide escrever um livro, se estabelecer no Youtube ou falar em eventos (geralmente os três), como especialistas autodenominados nessas tradições.

Se você está lucrando financeiramente com uma cultura que não é a sua, isso é uma bandeira vermelha bem clara. Eu não me importo quantas vezes você a visitou como turista, ou se levou grupos em peregrinação espiritual, ou pagou pessoas nativas para que você pudesse ser “iniciado” em sua tradição durante uma semana.

Nada disso significa nada, se você não está andando em (como eu chamo) um “Relacionamento Apropriado” com aquela cultura – há um equilíbrio entre o doar e o pegar, e você é genuinamente parte de uma tradição viva, e reconhecida assim por tais povos.

Portanto – talvez – pense sobre escrever aquele livro ou fazer aquele workshop.

O lado mais sutil disso são aqueles que lucram por associação – crédito social se você preferir.

Aqueles que estão investidos em sua identidade como um bruxo irlandês, ou um praticante voodoo, ou um mestre de runas nórdicos… Que não têm nenhuma experiência direta daquelas culturas ou tradições de origem e não se esforçam para fazer uma troca justa de volta com essas fontes.

Na verdade, muitos vão mutilar horrivelmente aquela cultura de origem porque isso os faz sentir legais, ou podem enganar os outros fazendo-os pensar que sabem o que estão fazendo.

Estou olhando para vocês, caras com kilt e “chackretes”.

Veja. Sei que nada disso é fácil de ouvir, se você estiver cometendo esses erros.

Ou se você costumava fazer essas coisas, e ainda está envergonhado sobre o quão pouco você sabia e o quanto você achava que sabia e podia.

Mas isso é importante.

Se vamos construir um “novo normal” a partir daqui, precisamos limpar um pouco os “decks” nas comunidades pagãs e definir novos padrões.

Eduquemo-nos e façamos o trabalho de buscar aqueles que há muito tentam nos educar.

Então OUÇA. E APRENDA. E CRESÇA.

Para sabermos mais. Para podermos fazer melhor.

REFERÊNCIAS:

[1] Draoí irlandesa, sacerdotisa e idealizadora de The Irish Pagan School.

[2] Palestra ministrada para o XI Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (EBDRC) em junho de 2020), disponível no canal oficial do evento no Youtube.

[3] Artigo original (em inglês) pode ser acessado aqui 1.

[4] Artigo original (em inglês) pode ser acessado aqui 2.


Ávillys mac Mórrigan (Dartagnan Abdias)
Antropólogo, cientista da religião, druida, pagão e oraculista.

Mundi Tempus
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Leanaí an Ghealach Clann
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"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.