A Rainha Maeve e a sacralidade da mulher

Rainha Medb ou Maeve foi a rainha de Connacht no Ciclo de Ulster da mitologia irlandesa. Era filha de Eochaid, rei supremo da Irlanda e esposa de Ailill mac Máta no mito “Táin Bó Cúailnge”, o principal texto desse ciclo.

O nome Medb, Meadhbh, Meadb, Medua, Maiv, Maev, Mave, Maeve está relacionado com o hidromel (mead), em proto-céltico *medu, e muitas vezes é traduzido como “a intoxicante”. Por outro lado, a palavra *med em proto-céltico  significa governar, medir, liderar e sendo assim, seu nome também pode ser traduzido como “a governante” .

Medb de Connancht e Medb de Lethderg são provavelmente representações da mesma deusa da soberania em locais diferentes.

Segundo sua história Medb foi casada diversas vezes sempre com reis, o que reforça a representação dela como a deusa da soberania com quem os reis precisavam casar para garantir a prosperidade da tribo através da instituição social do reinado sagrado.

Medb era considerada a filha mais bela, graciosa e generosa do Rei Eochaid mas também era considerada a mais mortífera. Ela podia se sustentar sozinha sem precisar de nenhum homem e faziam qualquer um que a olhasse perder 2/3 de suas forças ao verem sua beleza.

A história do “Roubo do Gado de Cooley” conta que Maeve e Ailill, seu esposo, estavam conversando uma noite sobre quem era o mais rico entre eles. A rainha era conhecida por ter alguns critérios para escolher um marido: ele não poderia ser mau, medroso ou ciumento e ela não aceitava possuir menos posses que ele.

Irritada com toda a discussão, ela resolve que as posses de ambos deveriam ser contadas e comparadas para que se provasse que os dois eram igualmente ricos. Infelizmente um touro branco e maravilhoso sem igual foi encontrado entre o gado do Rei e imediatamente Maeve colocou seus súditos para procurar um touro comparável ao belíssimo animal de Ailill.

Encontrou na região de Ulster, em Cúailnge, um touro chamado Donn Cúailnge (O touro marrom de Cooley) e tentou obtê-lo amigavelmente. Porém Daré, filho de Fiachna, dono do touro e vassalo de Conchobar mac Nessa, ouviu os mensageiro de Maeve conversando enquanto descansavam e não gostou do que ouviu: que Maeve teria o touro por bem ou por mal.

A negação do pedido de Maeve colocou as duas províncias da Irlanda, Ulster e Connacht, em guerra. Os homens de Ulster nessa época carregavam a maldição de Macha que diz que quando eles mais necessitarem de suas forças, eles sentiram dores terríveis como as que Macha sentiu ao ser forçada a dar a luz numa corrida para satisfazê-los. Por causa disso, a província de Ulster é defendida por Cuchúlainn, o maior herói da Irlanda. Fergus, seu melhor amigo, era o grande campeão de Connacht. Diversos combates e mortes aconteceram em ambos os lados pela disputa do touro. Quando finalmente o touro chega a Cruachan, a fortaleza de Maeve, os dois touros são colocados em combate e o marrom derrota o branco porém falece devido a seus ferimentos.

No final do texto quando Cuchúlainn finalmente se encontra com Maeve, por mais raiva que tivesse, ele não a mata, nem a agride. Ele a respeita em seu momento íntimo. Ela está menstruada e se isola para deixar correr suas águas. O sangue dela é tão abundante que ao tocar a terra dá origem a três córregos tão largos que cada um poderia ter o próprio moinho, o local foi chamado de Fual Medbha (as águas de Medb) segundo a lenda.

Uma das coisas mais importantes que podemos observar sobre Maeve e sobre ser uma mulher celta no Táin Bó Cúailnge é a menção a menstruação explicitamente registrada nesse mito.

Maeve é tratada com respeito e proteção em seu momento feminino e é preciso notar isso, visto que esse texto passou por inúmeras traduções e o tema do sangue feminino é muitas vezes tratado como tabu, seja por influência cristã, seja por influência do pensamento patriarcal.

O fato é que o poder de gerar outra vida é algo impressionante e o corpo feminino se torna algo fantástico e temido por aqueles que não possuem a mesma capacidade. Muito da nossa cultura na sociedade atual está embasada em controlar o corpo feminino e consequentemente a mulher que está ali.

Numa tentativa de controlar o poder de criar, a mulher, o útero e a menstruação são tratadas como algo sujo, ruim e maculado, criando uma hierarquia de poderes, onde o feminino é inferior ao masculino e este domina tudo.

É preciso reconhecer o poder que existe no útero e na menstruação, não em uma posição de superioridade perante o masculino mas de forma igualitária. Assim como Maeve achava indispensável que ela fosse tratada como igual por Ailill, homens e mulheres precisam tratar e respeitar uns aos outro como iguais em direitos, deveres, responsabilidades e consequências.

O corpo feminino, assim como o masculino e outros, é sagrado e faz parte da natureza. O sangue menstrual não é sujo ou nojento, é o símbolo do poder de criar uma nova vida e é preciso resgatar a sacralidade desses símbolos que foram deturpados.

Honrar as deusas da terra e estar em harmonia com a natureza também passa por honrar e respeitar o nosso próprio corpo pois somos descendentes dos deuses e somos parte da natureza como todos os outros. A menstruação é um fenômeno natural e cíclico que rege o funcionamento do corpo feminino em todos os momentos.

Quando honramos nossa menstruação estamos honrando nossa vivência enquanto mulher, estamos honrando todas as mulheres que existem, que já existiram e que vão existir e estamos honrando as deusas.

Ao honrar a menstruação e tratá-la como algo sagrado, o que ela é, estamos nos reconectando com a sacralidade da natureza que existe em nós, finalmente nos damos conta de que não somos cidadãs de segunda classe, somos sagradas também e merecemos ser respeitadas em nossa sacralidade independente de qualquer outra justificativa.

Beijo no coração.

Máh Búadach
Druidesa da Tribo do Caldeirão das Ondas (Salvador/BA) e pesquisadora da cultura celta e do Druidismo.

O Livro de Buadach
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Espiral das Deusas Celtas
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