As virtudes célticas: instruções sobre ética.

Muitas pessoas chegam ao paganismo querendo fugir dos dogmas e da opressão das religiões dominantes. Para muitos essa busca por libertação significa fugir de todo e qualquer tipo de regra, buscando autonomia para decidirem sozinhas o que devem ou não fazer, e muitas vezes acreditam que religiões pagãs, por não possuírem um “livro-guia”, não possuem um código de ética, ou de conduta, ou se limitam a seguir leis genéricas como “tudo que você faz volta a você três vezes” ou “faça o que quiser sem prejudicar ninguém”, sem fazer, contudo, uma boa análise da referência ideológica de onde essas frases saíram. Entretanto, esse é um pensamento equivocado.

Todos nós passamos por momentos difíceis na vida e é muito fácil perceber que a vida não é tão simples quanto gostaríamos. Muitas vezes a verdadeira liberdade reside na disciplina de se esforçar todos os dias para ser alguém melhor e assim fazer do mundo um lugar melhor. Toda Espiritualidade possui um código de conduta que indica qual caminho percorrer para se tornar uma pessoa plena mesmo que ela não possua dogmas ou um “livro-guia”.

No Druidismo, nós temos um conceito que é semelhante ao encontrado nas religiões nórdicas como a Asatru Vanatru: são as Virtudes. Na tradição literária irlandesa temos um gênero textual chamado “Tecosc Ríg”  que significa “Ensinamento do Rei”, sendo “As instruções de Cormac”, “A instrução verbal de Cuchúlainn”, “O testamento de Morainn” e “Ensinamentos de Cruscraid” os textos mais emblemáticos do tema.

O tema principal desses textos é ensinar a um homem escolhido para ser Rei como ele deveria liderar seu povo de forma a garantir a prosperidade da Tribo. Os líderes celtas eram escolhidos dentro aqueles que não possuíssem nenhum defeito, pois o líder seria o exemplo de conduta para todos os membros daquela Tribo. No texto “As Instruções de Cormac”, Cairpre, filho de Cormac, recebe os ensinamentos do próprio pai que ao ser ferido em uma batalha e perder um olho não poderia mais reinar pois era proibido que qualquer homem com defeito fosse rei em Ériu (antigo nome da Irlanda), como ele mesmo cita no conto.

Atualmente não temos plenas condições de escolher líderes exemplares mas podemos escolher nos tornarmos bons exemplos para nossos filhos e nossas comunidades, podemos escolher desenvolver as Virtudes em nós e assim demonstrarmos para todos como o mundo poderia ser mais justo e agradável. Diversos grupos tem listas diferentes variando entre 9 e 15 Virtudes extraídas da interpretação dos “Tecosc Ríg”. Para os estudos da Tribo do Caldeirão das Ondas, onde sou a druidesa responsável, analisamos principalmente “As Instruções de Cormac” e extraímos dele as 9 Virtudes a serem trabalhadas por todos no seu desenvolvimento pessoal e espiritual.

As nove virtudes da Tribo do Caldeirão das Ondas são:

  • Honra: buscar uma conduta pessoal baseada na ética, ter uma boa reputação, ter um comportamento nobre, é o modo como se é percebido e valorado pela comunidade.
  • Verdade: buscar o que está em conformidade com os fatos e a realidade, ser honesto, sincero.
  • Sabedoria: Buscar se desenvolver em todos os aspectos através do esforço dedicado, a excelência plena, grande conhecimento, erudição.
  • Justiça: Buscar o equilíbrio nas relações, ter a capacidade de discernir a verdade, ser imparcial.
  • Hospitalidade: desenvolver a aceitação e abertura a outras pessoas, o respeito pela diversidade e pelos direitos dos outros, a recepção amorosa das pessoas sem preconceitos e ser recebido da mesma forma pelos outros.
  • Coragem: buscar a capacidade de agir apesar do medo, do temor e da intimidação, firmeza nas decisões e responsabilidade nas ações.
  • Devoção: desenvolver o amor e a dedicação ao caminho espiritual escolhido, observância das práticas religiosas, busca incessante pela conexão espiritual.
  • Responsabilidade: assumir as próprias escolhas e arcar com as consequências, cumprir seus compromissos e honrar a palavra empenhada.
  • Lealdade: ser amigo e companheiro, cuidar uns dos outros com carinho, amizade e reciprocidade.

Ao assumir o trono, o novo Rei assume um compromisso: ser um exemplo para os outros. Assim, se desejamos ser soberanos de nossas vidas, ao invés de querermos o caos absoluto sem regras, devemos escolher ativamente quais os compromissos que queremos assumir e arcar com a responsabilidade de nos tornamos capazes de cumpri-los. Esses compromissos podem estar implícitos na Tríade mais conhecida do Druidismo: “Curar a si mesmo, curar a Tribo, curar a Terra” e podem ser sintetizados numa única pergunta “Como nos relacionamos conosco e uns com os outros?”.

Assumir compromissos é assumir o papel de defensor do que achamos correto. Um druidista se compromete a honrar a Natureza, os Deuses, os Ancestrais e toda a vizinhança humana, animal, vegetal, mineral e espiritual que está ao nosso redor. Ele se compromete a buscar a Verdade através da Natureza, do Conhecimento e da Inspiração. Ele se compromete a merecer a Soberania buscando ser livre, autônomo, responsável e independente. Logo o código de conduta do druidista é desenvolver a sua própria ética pessoal usando como ferramentas métodos ativos e pacíficos que são as Virtudes. A Ética então seria entendida como as regras que seguimos para termos o cuidado de preservar o que é valioso para a Tribo: as nossas relações.

Usar as Virtudes como ferramentas para o desenvolvimento pessoal requer atenção plena. É preciso assumir uma postura de observador do próprio comportamento, buscando ativamente mudar características pessoais que estejam em desacordo com as Virtudes.

Todo druidista deveria trabalhar o auto-conhecimento pois é a partir da cura pessoal que podemos estar aptos para ajudar os outros e melhorar nossas relações, e eu convido a todos que desejam seguir essa Espiritualidade que façam o mesmo.

Beijo no coração.

Máh Búadach
Druidesa da Tribo do Caldeirão das Ondas (Salvador/BA) e pesquisadora da cultura celta e do Druidismo.

O Livro de Buadach
https://olivrodebuadach.wordpress.com

Espiral das Deusas Celtas
https://www.facebook.com/espiraldasdeusasceltas/


Direitos Autorais

A violação de direitos autorais é crime: Lei Federal n° 9.610, de 19.02.98. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon : Caer Siddi e seus respectivos autores. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Referências bibliográficas e sites consultados na pesquisa dos artigos, clique aqui.