Branwen, Filha de Llyr

O Segundo Ramo do Mabinogion.

A chegada de Matholwch

Bendigeid Fran, o filho de Llyr, era o rei coroado desta ilha e era honrado com a coroa de Londres. Certa tarde, ele estava em Harlech, em Ardudwy, na sua corte, e sentou-se no rochedo de Harlech, examinando o mar. Com ele estavam seu irmão Manawyddan, o filho de Llyr, e seus irmãos por parte de mãe, Nissyen e Efnissyen, e igualmente muitos outros nobres, como era adequado ver-se em torno de um rei. Seus dois irmãos pelo lado materno eram os filhos de Eurosswydd com sua mãe, Penardun, a filha de Beli, filho de Manogan. E um desses rapazes era um bom jovem, de gentil natureza e faria a paz entre seus parentes, levando seus familiares a ser amigos quando sua ira estivesse no mais alto ponto; e esse era Nissyen. Mas o outro levaria seus irmãos à contenda quando estivessem em perfeita paz. Ao se sentarem, viram treze navios vindo rapidamente do sul da Irlanda em sua direção. O vento soprava atrás deles e aproximavam-se rapidamente.
– Vejo navios ao longe – disse o rei -, vindo velozmente em direção a terra. Ordenai aos homens da corte que se armem e vão até lá para descobrir suas intenções.
Assim, os homens armaram-se e foram rumo aos navios. Ao verem os navios próximos, ficaram certos de jamais ter visto embarcações melhor equipadas. Belas bandeiras de cetim estavam nelas. Viram que um dos navios sobrepujava os demais e enxergaram um escudo erguido no lado do navio e a ponta do escudo voltada para cima em sinal de paz. Os homens acercaram-se o suficiente para poder conversar. Lançaram então os botes e vieram para terra, saudando o rei, que já podia ouvi-los do lugar onde estava, no rochedo sobre suas cabeças.
– O Céu vos faça prosperar – disse ele – e sede bem vindos. A quem pertencem estes navios e quem é o chefe entre vós?
– Senhor – eles disseram -, Matholwch, rei da Irlanda, está aqui e estes navios lhe pertencem. – Para que ele vem? – perguntou o rei. – E ele virá a terra?
– Ele veio até vós como pretendente, senhor – disseram eles -, e não virá a terra a menos que obtenha de vós o seu dom.
– E o que seria isso? – inquiriu o rei.
– Ele deseja aliar-se convosco, senhor – disseram eles -, e vem para pedir Branwen, a filha de Llyr, a fim de que, se bem vos parecer, a Ilha do Poderoso possa unir-se à Irlanda, tornando-se ambas mais fortes.
– Realmente – disse ele -, deixai-os vir a terra e vamos então conversar.
E essa resposta foi levada a Matholwch.
– De boa vontade irei – disse ele.
Então, desembarcou e receberam-no alegremente. Grande foi a multidão no palácio naquela noite, reunindo a comitiva do visitante e os da corte. No dia seguinte, reuniram-se em conselho e resolveram dar a mão de Branwen a Matholwch. Ela era uma das três principais damas desta Ilha e a mais linda donzela do mundo.
E escolheram Aberffraw como o lugar onde se tornaria sua noiva. Com essa finalidade partiram e rumo a Aberffraw dirigiram-se as multidões. Matholwch e sua comitiva em seus navios, Bendigeid Fran e seu séquito por terra, até chegarem a Aberffraw. Em Aberffraw começaram a festa e sentaram-se da seguinte maneira: o rei da Ilha do Poderoso e Manawyddan, o filho de Llyr, a um lado e Matholwch do outro lado e Branwen, a filha de Llyr, ao lado dele. E não estavam dentro de uma casa, mas sob tendas. Casa alguma jamais pôde conter Bendigeid Fran. Começaram o banquete, divertiram-se e fizeram discursos. E quando lhes era mais agradável dormir do que se divertirem, foram descansar.

A ira de Efnissyen

No dia seguinte, eles se levantaram e todos os da corte e os oficiais começaram a equipar e ordenar os cavalos e os criados, dispondo-os ordenadamente ao longo do mar.

Nesse dia, Efnissyen, o homem briguento de quem falamos acima, chegou por acaso ao local onde estavam os cavalos de Matholwch e perguntou de quem os cavalos poderiam ser:
– São os cavalos de Matholwch, rei da Irlanda, que se casou com Branwen, vossa irmã; dele são os cavalos.
– E é então o que fizeram com uma moça como ela, além de tudo minha irmã, entregaram-na sem meu consentimento? Não me poderiam ter oferecido insulto algum maior do que esse! – exclamou ele. Lançou-se sobre os cavalos e cortou-lhes os lábios até os dentes, as orelhas até perto de suas cabeças, os rabos quase na raiz e, onde quer que pudesse agarrar suas pálpebras, cortou-as até o osso, desfigurando os cavalos e tornando-os inúteis.

Chegaram com essas novas a Matholwch, dizendo que os cavalos haviam sido desfigurados e machucados, de forma a nenhum deles jamais poder ser utilizado outra vez.
– De fato, senhor – disse um da comitiva -, foi um insulto contra vós e como tal deve ser entendido.
– Na verdade, é uma espanto para mim que, se desejavam insultar-me, me houvessem dado uma donzela de tão alta estirpe e tão amada por sua família como fizeram.
– Senhor – disse um outro -, vós vedes que assim é e nada tendes a fazer além de irdes para vossos navios.
E logo ele partiu para seus navios.

Notícias chegaram a Bendigeid Fran de que Matholwch estava deixando a corte sem pedir permissão e mensageiros foram enviados para perguntar-lhe o porquê de agir assim. E os mensageiros enviados foram Iddic, o filho de Anarawd, e Hefeydd Hir. Estes o alcançaram e perguntaram-lhe o que pretendia fazer e porque partia.
– Na verdade – disse ele -, se eu soubesse, não teria chegado perto daqui. Fui completamente insultado, ninguém jamais teve tratamento pior do que eu tive neste lugar. Mas uma coisa acima de todas me surpreende.
– O que é? – perguntaram eles. – Que Branwen, a filha de Llyr, uma das três principais damas desta ilha e filha do rei da Ilha do Poderoso, me fosse dada como minha noiva e depois disso eu fosse insultado. E fico maravilhado de que o insulto não me fosse feito antes de me concederem uma donzela tão excelente quanto ela.
– Verdadeiramente, senhor, não era o desejo de qualquer um dos que estão na corte – disseram eles -, nem de qualquer um dos que estão no Conselho que recebêsseis tal insulto. Como fostes insultado, a desonra é maior para Bendigeid Fran do que para vós.
– Exatamente – disse ele -, assim penso. Não obstante, ele não pode desfazer o insulto.
Os homens retornaram com essa resposta ao lugar onde Bendigeid Fran estava e contaram-lhe qual resposta Matholwch lhes dera.
– Na verdade – disse ele -, não há meios pelos quais o impedir de partir em inimizade conosco que não iremos tomar.
– Bem, senhor – disseram eles -, enviai-lhe uma outra embaixada.
– Assim farei – disse ele. – Erguei-vos, Manawyddan, filho de Llyr, e Hefeydd Hir e Unic Glew Ysgwyd e ide atrás dele para dizer-lhe que terá um cavalo bom para cada um dos que foram machucados. E, além disso, como compensação pelo insulto, ele terá um bastão de prata, tão grande e alto como ele mesmo e um prato de ouro do tamanho do seu rosto. E contai-lhe quem fez isso tudo e que foi feito contra minha vontade, mas quem o fez é meu irmão por parte de mãe e seria então duro para mim condená-lo à morte. Deixai-o vir e encontrar-se comigo – disse ele – e faremos a paz em quaisquer termos que ele possa desejar.

A embaixada foi até Matholwch e disse-lhe todas essas palavras de modo simpático e ele as escutou.
– Homens – disse ele -, vou buscar conselho.
Assim, ele reuniu seu Conselho, onde consideraram que, se ele recusasse a proposta, o mais provável seria sofrerem mais vergonha em lugar de obter uma tão grande compensação. Resolveram então aceitá-la e retornaram em paz à corte.

O Casamento de Branwen e Matholwch e o Caldeirão da Renovação

Então, os pavilhões e as tendas foram dispostos à maneira de um salão. E eles vieram comer e, como se haviam sentado no início da festa, sentaram-se agora. Matholwch e Bendigeid Fran começaram a discursar. Pareceu a Bendigeid Fran, enquanto falavam, que Matholwch não estava tão alegre quanto estivera antes. E pensou que o soberano poderia estar triste em razão da pequenez da compensação que obtivera pelo erro que fora cometido contra ele.
– Ó homem – disse Bendigeid Fran -, não estais falando nesta noite tão animadamente quanto antes. E, se é por causa da pequenez da compensação, vós lhe acrescentareis qualquer coisa que possais escolher e amanhã mesmo vos entregarei os cavalos.
– Senhor – disse ele -, o Céu vos recompense!
– E eu vos aumentarei a compensação – disse Bendigeid Fran -, pois vos darei um caldeirão cuja propriedade é que, se um dos vossos homens for morto hoje e jogado lá dentro, amanhã ele estará tão bem como jamais esteve nos melhores dias, exceto que não recuperará sua fala.
Matholwch deu-lhe grandes agradecimentos e ficou muito alegre por esse motivo.

Na manhã seguinte entregaram a Matholwch tantos cavalos treinados quantos havia. E então viajaram para outro distrito, onde o pagaram com potros até completar o número total. Desde então, esse distrito foi chamado Talebolyon.

Uma segunda noite sentaram-se juntos.
– Meu senhor – disse Matholwch -, de onde obtivestes o caldeirão que me destes?
– Ganhei-o de um homem que esteve em vosso país – disse Bendigeid Fran -, e não o daria a não ser a alguém que viesse de lá.
– Quem era? – perguntou ele.
– Llassar Llaesgyfnewid. Ele chegou aqui vindo da Irlanda com Cymideu Cymeinfoll, sua esposa, que escapou da Casa de Ferro na Irlanda, quando a aqueceram até que ficasse rubra ao redor deles e fugiram para cá. E é um assombro para mim nada saberdes em relação a esses fatos.

– Na verdade, sei alguma coisa e tudo quanto souber vo-lo contarei. Certo dia, eu estava caçando na Irlanda e cheguei a um monte junto a um lago, que é chamado Lago do Caldeirão. Vi um enorme homem de cabelos amarelos vindo do lago com um caldeirão em suas costas. Era um homem de grande tamanho e de horrível aspecto e uma mulher o seguia. E, se o homem era alto, duas vezes maior era a mulher. Eles vinham em minha direção e saudaram-me. ‘Na verdade’, eu perguntei, ‘para onde estais viajando?’ ‘Vede’, disse-me, ‘este é o motivo pelo qual viajamos. Ao fim de um mês e uma quinzena esta mulher terá um filho. E a criança que nascerá ao fim de um mês e uma quinzena será um guerreiro totalmente armado’. Assim, levei-os comigo e sustentei-os. Estiveram comigo por um ano. E esse ano eu os tive comigo não de má vontade. Mas então houve murmúrios porque eles estavam comigo. Pois, desde o começo do quarto mês, eles começaram a fazer-se odiados e a fazer desordens na terra, cometendo afrontas e molestando e estorvando os nobres e as damas. Então meu povo se ergueu e pediu-me que me separasse deles. Obrigaram-me a escolher entre eles e meus domínios. E eu utilizei o conselho do meu país para saber o que seria feito em relação a eles, pois não partiriam por sua própria vontade, nem contra sua vontade poderiam ser compelidos a fazê-lo, através de luta. E, estando o povo do país nesse dilema, ordenaram que fosse feita uma câmara toda de ferro. Quando o quarto já estava pronto, lá veio cada ferreiro que havia na Irlanda e cada um que possuía tenazes e martelo. Empilharam carvões tão alto que chegaram ao topo da câmara. Serviram ao homem, à mulher e à criança uma abundância de comida e bebida. Quando perceberam que eles estavam bêbados, começaram a por fogo nos carvões ao redor do quarto e a soprá-los com foles até que a casa ficasse incandescente em volta deles. E houve uma reunião no meio do chão do quarto. O homem permaneceu até que as placas de ferro estivessem todas brancas de calor. E então, em razão do grande calor, o homem chocou-se contra as placas com seu ombro e rebentou-as e sua esposa o seguiu; mas, exceto ele e sua esposa, ninguém escapou na ocasião. Assim, eu suponho, senhor – disse Matholwch a Bendigeid Fran -, que eles vieram até vós.
– Sem dúvida, eles vieram para cá – disse ele – e deram-me o caldeirão.
– De que maneira vós os recebestes?
– Espalhei-os em cada parte dos meus domínios e eles se tornaram numerosos e estão prosperando por toda parte e fortalecem os lugares onde estão com homens e armas dos melhores jamais vistos.

Naquela noite, continuaram a conversar tanto quanto quiseram e tiveram menestréis e diversão e, quando lhes era mais agradável dormir do que permanecer mais tempo sentados, foram descansar. E assim o banquete continuou com alegria. Quando terminou, Matholwch viajou para a Irlanda e Branwen com ele. Partiram de Aber Menei com treze navios e chegaram à Irlanda, onde houve grande alegria em razão da sua chegada. Nenhum grande homem ou nobre dama visitou Branwen a quem ela não desse um broche, um anel ou uma jóia real como presente com o qual era honroso ser visto ao partir. Nessas atividades, ela gastou o ano com muito renome e passou agradavelmente seu tempo, desfrutando de honra e amizade. E, entretanto, ocorreu que ela ficou grávida. No devido tempo, nasceu-lhe um filho e o nome que lhe deram foi Gwern, filho de Matholwch. Mandaram o menino para ser criado num lugar onde estavam os melhores homens da Irlanda.

O desprezo de Branwen

E, no segundo, ano ergueu-se um tumulto na Irlanda em razão do insulto que Matholwch recebera em Câmbria e do pagamento que lhe fora feito por seus cavalos. Seus irmãos de criação que, como tais, estavam mais próximos dele, culpavam-no abertamente por esse motivo. E ele não pôde ter paz em razão do tumulto até o vingarem dessa desgraça. A vingança que tomaram foi afastar Branwen do quarto dele e fazê-la cozinhar para a Corte. E ordenaram que o açougueiro, depois de picar a carne, fosse até ela e lhe desse a cada dia um golpe na orelha. Tal foi a punição que lhe deram.

– Realmente, senhor – disseram a Matholwch seus homens -, proibí já os navios, as balsas de transporte e os botes de irem a Câmbria e todos os que vierem de Câmbria até aqui, prendei-os para que não possam voltar e fazer com que estas coisas sejam conhecidas lá.
Assim ele fez e assim foi por não menos do que três anos.

Branwen criou um estorninho na cobertura da padaria do palácio, ensinou-o a falar e ensinou ao pássaro qual era a aparência de seu irmão. Escreveu uma carta sobre suas aflições e sobre o desprezo com que era tratada, amarrando-a na raiz da asa do pássaro, que enviou em direção à Grã-Bretanha. O pássaro chegou à Ilha e, certo dia, encontrou Bendigeid Fran em Caer Seiont, em Arfon, onde estava reunido com seus nobres. A ave pousou em seu ombro e arrepiou suas penas, de modo que a carta fosse vista. Souberam então que o pássaro fora criado em casa.

Bran parte para a Irlanda

Bendigeid Fran tomou a carta e olhou-a. Depois de a ler, entristeceu-se excessivamente pelas notícias das aflições de Branwen. E imediatamente começou a enviar mensageiros que reunissem toda a Ilha. Fez com que sete vintenas e quatro países viessem a ele e queixou-se ele mesmo diante de todos pela aflição que sua irmã suportava. Então deliberaram e no Conselho resolveram ir para a Irlanda e deixar sete homens como príncipes aqui e Caradawc, o filho de Bran, como o chefe deles e dos seus sete cavaleiros. Em Edeyrnion esses homens foram deixados. Por essa razão foram os cavaleiros deixados na cidade. Os nomes desses sete homens eram Caradawc, filho de Bran, e Hefeydd Hir e Unic Glew Ysgwyd e Iddic, o filho de Anarawc Gwalltgrwm e Fodor, filho de Erfyll, e Gwlch Minascwrn e Llassar, filho de Llaesar Llaesgygwyd e Pendaran Dyfed, como um jovem pajem com eles. Esses foram estabelecidos como sete ministros para encarregarem-se desta ilha. E Caradawc, o filho de Bran, era o chefe entre eles.

Bendigeid Fran, com a multidão de que falamos, velejou para a Irlanda e não estava ainda longe no mar quando chegou à água rasa. Não eram senão dois rios: o Lli e o Archan foram chamados e as nações cobriram o mar. Ele então prosseguiu com todas as provisões que tinha em suas costas e aproximou-se das praias da Irlanda.

Os porqueiros de Matholwch estavam próximos da costa e foram a Matholwch.
– Senhor – disseram eles -, saudação a vós.
– O Céu vos proteja – ele respondeu -, tendes quaisquer novidades?
– Senhor, vimos coisas maravilhosas, vimos uma floresta no mar, num lugar onde jamais vimos uma só árvore.
– Isso sem dúvida é uma maravilha. Vistes qualquer outra coisa?
– Vimos, senhor – disseram eles -, uma vasta montanha ao lado da floresta que se movia e havia um alto cume no topo da montanha e um lago em cada lado do cume. E a floresta e a montanha e todas essas coisas se moviam.
– Na verdade – disse ele -, não há ninguém que possa saber qualquer coisa em relação a isso, exceto Branwen.

Mensageiros foram mandados a Branwen.
– Senhora – disseram eles -, que pensais seja isso?
– Os homens da Ilha do Poderoso, que vieram aqui por ouvirem sobre meus maus-tratos e minhas aflições.
– Que é a floresta vista sobre o mar? – perguntaram eles.
– As velas e os mastros dos navios – ela respondeu.
– Ai! Que é a montanha que se vê ao lado dos navios?
– Bendigeid Fran, meu irmão, chegando à água rasa; não há navio que possa contê-lo.
– Que é o alto cume com um lago em cada um dos seus lados?
– Ao olhar na direção desta ilha ele está irado e seus dois olhos, um em cada lado de seu nariz, são os dois lagos que ladeiam o cume.

Os guerreiros e os principais homens da Irlanda foram reunidos apressadamente e fizeram um conselho.
– Senhor – disseram os nobres a Matholwch -, não há outro conselho além de retirar-vos para além do Linon (um rio que há na Irlanda) e manter o rio entre vós e ele, destruindo a ponte que atravessa o rio, pois há no seu fundo uma magnetita sobre a qual nenhum barco ou navio poderá passar.
Assim, eles se retiraram pelo rio e quebraram a ponte.
Bendigeid Fran chegou a terra e a frota com ele pela margem do rio.
– Senhor – disseram os capitães -, conheceis a natureza deste rio, que nada pode atravessá-lo e que não há ponte sobre ele?
– Não há nenhuma – replicou o rei -, exceto que aquele que será o chefe, deixai-o ser uma ponte. Eu o serei.
Foi então essa declaração proferida pela primeira vez e é ainda usada como provérbio. Quando ele se deitou atravessando o rio, tábuas foram colocadas sobre ele e o exército passou por cima.

Quando o gigante levantou-se, os mensageiros de Matholwch chegaram até ele, saudaram-no e deram-lhe cumprimentos em nome de Matholwch, seu parente, e mostraram como, pela sua benevolência, ele não tinha merecido de Bendigeid Fran senão o bem.
– Pois Matholwch deu o reino da Irlanda a Gwern, vosso sobrinho e filho de vossa irmã. E isso ele coloca diante de vós como uma compensação pelo erro e desprezo feitos a Branwen. E Matholwch será mantido onde quiserdes, seja aqui ou na Ilha do Poderoso.
Disse Bendigeid Fran:
– Não terei eu mesmo o reino? Então porventura eu possa aconselhar-me em relação a vossa mensagem. Deste momento até lá, nenhuma outra resposta obtereis de mim.
– Em verdade – disseram eles -, a melhor mensagem que recebermos para vós, nós vô-la traremos e esperai que falaremos ao nosso rei.
– Esperarei – respondeu Bendigeid Fran – e retornai rapidamente.

Uma casa para Bran

Os mensageiros partiram e chegaram a Matholwch.
– Senhor – disseram eles -, preparai uma mensagem melhor para Bendigeid Fran. Ele absolutamente não escutaria aquela que lhe transmitimos.

– Meus amigos – disse Matholwch -, qual poderia ser vosso conselho?
– Senhor, não há outro conselho exceto este apenas. Ele nunca soube o que é estar dentro de uma casa, fazei então uma casa que possa contê-lo e aos homens da Ilha do Poderoso de um lado e a vós e ao vosso exército do outro. Entregai vosso reino à vontade dele e prestai-lhe homenagem. Assim, em razão da honra que lhe fizestes construindo-lhe uma casa, considerando que ele nunca teve uma casa que o pudesse conter, ele fará a paz convosco.
Os mensageiros então voltaram a Bendigeid Fran levando-lhe essa mensagem.

E ele buscou o conselho e no Conselho resolveu-se que essa decisão seria aceita. Tudo foi feito de acordo com o aviso de Branwen e a fim de que o país não fosse destruído. A paz foi feita e tão vasta quanto forte a casa foi construída. Mas os irlandeses planejaram uma maquinação astuta. E a astúcia foi que pusessem suportes em cada lado dos cem pilares que estavam na casa. Colocaram um saco de couro em cada suporte e um homem armado dentro de cada um deles. Então Efnissyen entrou antes do exército da Ilha do Poderoso, esquadrinhando a casa com olhares ferozes e selvagens e observou os sacos de couro que estavam pendurados nos pilares.
– Que há nesse saco ? – perguntou ele a um dos irlandeses.
– Comida, boa alma – disse este.
Efnissyen apalpou-o até chegar à cabeça do homem e apertou a cabeça até sentir seus dedos se encontrarem no cérebro através do osso. Ele deixou aquele saco e pôs sua mão sobre outro, perguntando o que havia lá dentro.
– Comida – disse o irlandês.
E desse modo ele fez a cada um deles até que, de todos os duzentos homens, não deixara nenhum vivo senão um. Ele perguntou o que estava ali.
– Comida, boa alma – disse o irlandês.
Efnissyen apalpou-o até sentir a cabeça e apertou-a como fizera aos outros. Embora achasse que a cabeça deste estava protegida, não o deixou até matá-lo. E então cantou uma estrofe.

Há neste saco um diferente tipo de comida:
O combatente pronto para quando o ataque é feito
Por seus companheiros, preparado para a batalha.

Logo após, vieram os guerreiros para a casa. Os homens da Ilha da Irlanda entraram na casa por um lado e os homens da Ilha do Poderoso pelo outro. Tão logo se sentaram, houve harmonia entre eles e a soberania foi conferida ao menino. Quando se concluiu a paz, Bendigeid Fran chamou o menino a si e de Bendigeid Fran o menino foi para Manawyddan e foi amado por todos os que o viram. De Manawyddan o menino foi chamado por Nissyen, o filho de Eurosswydd, indo amorosamente até ele.
– Porque – disse Efnissyen – não vem meu sobrinho, o filho de minha irmã, até mim?
– Alegremente o deixo ir a vós – disse Bendigeid Fran.
E o menino alegremente foi até ele.
– Pela minha crença no Céu – disse Efnissyen em seu coração -, jamais imaginado por alguém desta casa foi o massacre que vou cometer neste momento.

Efnissyen mata Gwern e a luta entre britanos e irlandeses

Efnissyen se ergueu, pegou o menino pelos pés e, antes que qualquer um na casa pudesse agarrá-lo, ele depressa o empurrou no fogo ardente. E quando Branwen viu seu filho queimando no fogo, ela, do lugar onde estava sentada entre seus dois irmãos, esforçou-se para também saltar no fogo. Mas Bendigeid Fran agarrou-a com uma mão e seu escudo com a outra. Então todos eles correram pela casa e nunca um tão grande tumulto foi feito por uma multidão dentro de uma casa quanto o que foi feito por eles enquanto cada homem se armava. Então disse Morddwyd Tyllyon:
– Os moscardos da Vaca de Morddwydd Tyllyon!
Enquanto todos buscavam suas armas, Bendigeid Fran mantinha Branwen entre seu escudo e seu ombro.

Os irlandeses acenderam um fogo sob o Caldeirão da Renovação. Lançaram ali os cadáveres até que estivesse cheio. No dia seguinte, eles voltavam tão bons lutadores quanto antes, exceto que não eram capazes de falar. E quando Efnyssien não viu os corpos mortos dos homens da Ilha do Poderoso ressuscitados em parte alguma, pensou em seu coração:
– Ai! Desgraçado sou eu, que devo ter sido a causa de chegarem os homens da Ilha do Poderoso a um tão grande dilema. Que o mal me castigue se eu não encontrar uma libertação para eles.
Ele se lançou sobre os cadáveres dos inimigos. Dois irlandeses descalços vieram até ele e, pensando que fosse um dos seus, arremessaram-no no caldeirão. Efnyssien esticou-se dentro do caldeirão, quebrando-o em quatro partes. Mas o esforço estourou também seu coração.

Em conseqüência disso, os homens da Ilha do Poderoso obtiveram tanto sucesso quanto os irlandeses. Contudo, não foram vitoriosos, pois, dentre todos eles, apenas sete homens escaparam e ao próprio Bendigeid Fran um dardo envenenado ferira no pé.

Eis que os sete homens que escaparam foram Pryderi, Manawyddan, Gluneu Eil Taran, Taliesin, Ynawc, Grudyen, o filho de Muryel, e Heylin, o filho de Gwynn Hen.

Bendigeid Fran ordenou-lhes que cortassem sua cabeça:
– Tomai minha cabeça e levai-a ao Monte Branco, em Londres, para sepultá-la com o rosto em direção à França. Por um longo tempo estareis na estrada. Em Harlech estareis festejando por sete anos, os pássaros de Rhiannon cantando para vós durante esse tempo. Durante todos esses dias, a cabeça será para vós uma companhia tão agradável como já era quando em meu corpo. E em Gwales, em Penfro, estareis por quatro vintenas de anos. Lá podereis permanecer e a cabeça intacta convosco até que abrais a porta que dá para Aber Henfelen e para a Cornualha. Depois de haverdes aberto a porta não podereis mais permanecer lá. Parti então para Londres para enterrar a cabeça e segui adiante.

A morte de Branwen

Cortaram-lhe a cabeça e esses sete prosseguiram com ela. Branwen era a oitava com eles. O grupo chegou a terra em Aber Alaw, em Talebolyon, e sentaram-se para descansar. Branwen olhou em direção à Irlanda e em direção à Ilha do Poderoso, para ver se as podia enxergar.
– Ai – disse ela -, a aflição esteve comigo desde que nasci; por minha causa foram duas ilhas destruídas!
Ela então proferiu um alto gemido e assim se partiu o seu coração. Fizeram-lhe um sepulcro de quatro lados e enterraram-na nas margens do rio Alaw.
Os sete homens viajaram para Harlech levando a cabeça consigo; ao chegarem lá encontraram uma multidão de homens e mulheres.
– Tendes alguma novidade? – perguntou Manawyddan.
– Não temos nenhuma – disseram eles -, salvo que Caswallawn, o filho de Beli, conquistou a Ilha do Poderoso e foi coroado rei em Londres.
– Que aconteceu a Caradawc, o filho de Bran, e aos sete homens que foram deixados com ele nesta ilha?
– Caswallawn veio sobre eles e matou seis dos homens. O coração de Caradawc partiu-se de tristeza por isso, pois ele podia ver a espada que matava os homens, mas não sabia quem a empunhava. Caswallawn tinha arremessado sobre ele o Véu da Ilusão, de modo que ninguém podia vê-lo matar os homens, mas apenas a espada podia ser vista. E não lhe agradou matar Caradawc porque ele era seu sobrinho, o filho de seu primo. E agora ele é o terceiro cujo coração se quebrou pela aflição. Pendaran Dyfed, que permanecera como um jovem pajem com esses homens, escapou para a floresta – disseram eles.

Os pássaros de Rhiannon

Então, foram para Harlech, onde pararam para descansar e providenciaram comida e bebida. Estavam sentados fazendo a refeição quando vieram três pássaros e começaram a cantar-lhes uma certa canção. Todas as canções que eles jamais tinham ouvido eram desagradáveis em comparação a essa e os pássaros pareciam-lhes estar a uma enorme distância, embora aparecessem tão distintamente como se estivessem perto. Nesse repasto continuaram por sete anos.

A Diversão da Nobre Cabeça

Ao fim do sétimo ano eles foram para Gwales, em Penfro. Lá encontraram um lugar bom e digno de um rei, dando para o oceano, onde havia um espaçoso salão. Eles entraram no salão e duas das suas portas estavam abertas, mas a terceira porta estava fechada, aquela que olhava em direção à Cornualha.

– Vede lá – disse Manawyddan -, é a porta que não podemos abrir.
E naquela noite eles se regalaram e ficaram alegres. De todas as comidas que tiveram diante de si e de tudo que ouviram, nada lembraram; nem disso, nem de qualquer tristeza, fosse qual fosse. Lá permaneceram quatro vintenas de anos, inconscientes de jamais terem passado um tempo mais alegre ou tranqüilo. E não ficaram mais cansados do que no primeiro instante em que chegaram, nem qualquer um deles sabia o tempo que haviam estado lá. A conversação da cabeça era-lhes tão agradável como se o próprio Bendigeid Fran estivesse com eles. Em razão dessas quatro vintenas de anos, o período foi chamado “a diversão da nobre cabeça”. E a diversão de Branwen e Matholwch foi no tempo em que foram para a Irlanda.

A Terceira Ocultação Agradável

Certo dia, disse Heilyn, o filho de Gwynn:
– O mal me castigue se eu não abrir essa porta para saber se é verdade o que dizem a esse respeito.
Ele assim abriu a porta e olhou em direção à Cornualha e Aber Henfelen. E, quando eles olharam, ficaram conscientes de todos os males que tinham suportado, de todos os amigos e companheiros que tinham perdido e de toda a miséria que lhes ocorrera como se tudo tivesse acontecido naquele mesmo momento e, especialmente, do terrível destino de seu senhor. Não puderam descansar por causa de sua perturbação, mas viajaram com a cabeça rumo a Londres. Sepultaram a cabeça no Monte Branco e, quando estava enterrada, essa foi a terceira ocultação agradável; e o terceiro descobrimento infortunado se deu quando ela foi desenterrada, já que nenhuma invasão pelo mar viria a esta ilha enquanto a cabeça estivesse oculta.

E esta é então a história contada por aqueles que viajaram pela Irlanda.

Na Irlanda ninguém ficou com vida, exceto cinco mulheres grávidas em uma caverna na floresta irlandesa. Essas cinco mulheres na mesma noite deram à luz cinco filhos a que alimentaram até se tornarem jovens adultos. Eles pensaram em esposas e ao mesmo tempo desejaram possuí-las. Cada um tomou como esposa a mãe de um dos seus companheiros e eles governaram o país e povoaram-no.

E estes cinco dividiram-no entre si. Por causa dessa partilha estão ainda assim arranjadas as cinco províncias da Irlanda. Eles examinaram a terra onde a batalha teve lugar e encontraram ouro e prata suficientes para se tornarem ricos.

E assim, termina esta parte do Mabinogion relativa ao golpe dado a Branwen, que foi o terceiro infeliz golpe desta ilha; e ao entretenimento de Bran quando as hostes de sete vintenas e quatro países foram à Irlanda para vingar o golpe dado a Branwen; e relativa ao banquete de sete anos em Harlech e à canção dos pássaros de Rhiannon e à permanência da cabeça pelo espaço de quatro vintenas de anos.

Tradução Bellouesus Isarnos
Assim, considera-te recepcionado, com meus votos de encontrares aqui algo que desperte teu interesse ou, na pior das hipóteses, não te entedie.

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