Eu quero ser uma mulher celta!

Tenho certeza que muitas de nós já se depararam com lindos textos falando como a mulher celta é forte e valente e como ela vive o amor de forma sincera e jamais se submete a ninguém. A maioria desses textos fala de um código de honra das mulheres celtas ou dos “mandamentos” da mulher celta e descreve uma lista de coisas que você precisar ser, sentir ou fazer para ser como elas eram. É realmente empolgante perceber que as mulheres tem buscado cada vez mais referências e exemplos sadios para seguir e se espelhar porém essa escolha precisa ser feita com criticidade e sabedoria. Escolher uma imagem romantizada acreditando que assim estará livre do seu oposto é um erro traiçoeiro que pode conduzir a um emaranhado de ilusões e preconceitos disfarçados. Sugiro, portanto, que já que desejamos conhecer mais a fundo a ética e moral que guiavam as ditas “Mulheres celtas”, nós precisamos nos aprofundar nos estudo sobre o que é SER MULHER e o que é SER CELTA.

Num texto anterior que publiquei aqui, explorei os conceitos que definem a palavra “Celta”, nesse segundo texto gostaria de explorar o que é ser mulher. Para além de uma definição biológica e genética ser mulher é muito mais do que ostentar o fenótipo dos cromossomos XX e variações. Cada cultura tem seus padrões do que é esperado do comportamento de homens e mulheres, logo ser mulher também passa por uma construção social.

Para além do Sagrado Feminino e da sacralidade da mulher, entender a presença do feminino nas sociedades antigas, implica também entender relações de poder, papéis sociais e importância dada ao gênero, todos esses questionamentos que só tiveram grande impacto na nossa sociedade depois do surgimento do Movimento Feminista.

Mas então o que essas mulheres celtas tinham de tão interessante que atrai tantas pessoas atualmente?

Os dados que podemos consultar para ter ideia de como era a vida de uma mulher celta são os relatos dos gregos e romanos que tiveram contato com as tribos celtas. Gostaria que fosse observado que esses dados relatam o olhar de um estrangeiro analisando a cultura celta, gostaria de lembrar também que as sociedades gregas e romanas desse período não são conhecidas por valorizar socialmente as suas mulheres, logo não é dificil encontrar sociedades do mesmo período onde as mulheres tinham mais direitos do que as gregas e romanas. E é justamente esses direitos da mulher celta que são romantizados para encantar a mulher moderna. Mas quais são esses direitos?

Segundo diversos autores, incluindo Tácito, Amiano Marcelino, Júlio César e Plutarco, as mulheres celtas eram treinadas em combate e iam a guerra. A mulher moderna não pode se alistar no exército por acaso? Ou aprender artes marciais?

Segundo as Brehon Laws, o sistema de leis nativo da Irlanda que vigorou até o séc. 17, era garantido as mulheres direito a divórcio, herança, separação de bens e muitos outros direitos políticos e sociais que em comparação com os das mulheres gregas e romanas da mesma época deixam claro que a mulher celta gozava de muito mais liberdade e autonomia política e social. Mas trazendo essa liberdade para os dias atuais, não teria a mulher de hoje ainda mais direitos que as mulheres celtas?

Dião Cássio fala da permissividade sexual das mulheres celtas, que poderiam escolher livremente seus parceiros sexuais, em seu relato do encontro da Júlia Domna, esposa do imperador Severo (193-221 d.C.), e uma mulher da Caledônia. Não podemos hoje escolher com quem temos relações sexuais e como nos relacionamos?

Os exemplos de Boudicca ou Boadicea e Cartimandua nos deixam claro que mulheres podiam governar tribos celtas e serem líderes de guerra e Tácito, senador e historiador romano, em 1 d.c., relata: “…que os celtas não faziam distinção entre governantes masculinos e femininos.” Seria espantoso termos uma presidenta liderando a nossa nação nos dias de hoje?

Pomponius Mela e Estrabão de Pontus relatam a existência de Druidesas. Os Druidas eram os que possuíam cargos de maior prestígio social, eles atuavam como professores, conselheiros e legisladores como relata Júlio César. As mulheres celtas poderiam portanto receber instrução formal e inclusive dedicar sua vida a longa jornada de aprendizado de até 20 anos para se tornar Druida. Deixo aqui a pergunta: é negado as mulheres hoje o acesso a educação? As mulheres são impedidas de se desenvolverem intelectualmente, serem consideradas sábias e serem tidas como referências nas suas áreas de estudo?

Eu quero deixar claro aqui que todas essas perguntas tem múltiplas respostas. Tudo vai depender do contexto que você vive. Se você fizer essas perguntas visualizando uma jovem mulher branca de classe média, quais serão as respostas? Será que teremos os mesmos resultados se pensarmos no contexto de uma jovem mulher negra de baixa renda? Quais as respostas que poderíamos dar se as variavéis variassem? Quais as diferenças que teríamos com relação a idade, raça, classe social, nível de escolaridade…?

Antes de romantizar a mulher celta e querer voltar no tempo para ser ela ou querer reviver um possível “código de honra da mulher celta”, eu gostaria que cada mulher que se identifica com os textos romantizados se perguntasse: será que eu realmente gostaria de viver numa tribo da idade do ferro sobrevivendo do trabalho agrícola, sofrendo invasões e em constantes guerras…? porque eu acho que esse tipo de vida é melhor do que a vida que eu levo hoje? O que a mulher celta tem que eu não tenho hoje? Respeito? Porque eu não sou respeitada como a mulher celta? Tenho absoluta certeza que nós temos hoje todos os direitos que elas tinham e até mais. O nosso problema não é ter os mesmos direitos que as mulheres celtas, nosso problema é que eles não são garantidos na prática. Não temos garantia de que nossas decisões seram aceitas e validadas. Porque não nos respeitam. Nós queremos respeito.

O conceito da soberania é extremamente importante para os celtas e ele é representado com uma personificação do feminino que testa um candidato antes lhe conceder a soberania propriamente dita. Ela é muitas vezes conhecida como “The Loathly Lady”, “A Dama repugnante”. Uma das adaptações mais conhecidas desse texto é “O casamento de Sir Gawain e a Dama repugnante”.

Nesse conto, o Rei Arthur precisa responder a pergunta: “O que as mulheres mais desejam?”, sem saber a resposta, ele diz que concederá qualquer pedido aquele que responder a pergunta. Uma senhora velha e horrível diz saber a resposta mas que só a revelará se puder se casar com Sir Gawain, um dos belíssimos cavaleiros da Távola Redonda. Fiel ao seu Rei, Gawain aceita e se casa com a velha. Porém na noite de núpcias, ela aparece como uma belíssima dama que pergunta a Sir Gawain se ele prefere que ela seja uma dama de dia para ele exibir socialmente e uma velha a noite na privacidade de seu quarto ou uma velha repugnante de dia e uma bela dama para lhe fazer companhia a noite na cama. Sem saber o que responder, Gawain diz: “O que você quiser ser, eu aceitarei. A decisão é sua”. A velha/dama então revela que o grande desejo das mulheres é ser soberana de sua propria vida e assim ela decide ser a bela dama o tempo todo.

Se o que nós mulheres buscamos é sermos soberanas de nossas próprias vidas então me parece que está mais do que na hora de pararmos de sonhar em como seria maravilhoso ser uma respeitada mulher celta, e começarmos a AGIR COMO UMA MULHER CELTA: indo a luta por respeito aos nossos direitos.

Beijo no coração.

Máh Búadach
Druidesa da Tribo do Caldeirão das Ondas (Salvador/BA) e pesquisadora da cultura celta e do Druidismo.

O Livro de Buadach
https://olivrodebuadach.wordpress.com

Espiral das Deusas Celtas
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