Mórrígan estaria recrutando?

Original: “Is the Mórrígan recruiting?”.
Por Lora O’Brien[1] & Tradução de Ávillys mac Mórrigan.
Disponível no Blog Lora O’Brien. Tradução autorizada pela autora.

Nota do tradutor:

Lora O’Brien desenvolve na Irish Pagan School cursos de conexão e aprofundamento com os deuses irlandeses e na sua própria prática do paganismo irlandês, fornecendo fontes incríveis para aprofundamento e pesquisa.

Esse texto nasce de uma importante observação de uma de suas alunas, que observava um crescente interesse e crescimento do número de devotos de Mórrígan em geral. A resposta de Lora foi mostrar que isso não é em si um recrutamento, mas uma constatação do quanto o mundo precisa da energia de Mórrígan, do quanto precisamos dela… E demonstrar que o trabalho devocional vai além do culto (seja doméstico ou sacerdotal), ele tange ao trabalho prático, tanto na tradição religiosa quanto fora dela.

É um texto cuja análise deve ser considerada e levada à reflexão de tantos outros trabalhos devocionais e para tantos outros (senão todos) deuses que cultuamos, buscamos ou sentimos seu chamado. Por que estou sendo chamado? Qual trabalho ou papel a deidade quer que eu desempenhe?

Em cima dessas reflexões, Lora esboça ainda algumas considerações sobre o sacerdócio, e pondera muito sabiamente o quanto profundo e assustador ele pode ser. Não porque os deuses nos assustam, mas pela responsabilidade que esse trabalho carrega. Igualmente ela aponta para a distinção do trabalho devocional do sacerdotal, sem colocar pesos de valores ou hierarquias e demonstrando que está tudo bem ser apenas devoto(a).

É um texto que vale sua leitura e seu tempo de reflexão.

Por fim, explico uma opção de tradução da palavra “lore” por “tradição”. Ainda que a palavra “lore” signifique muito mais do que o uso corrente da palavra “tradição”, não existe uma tradução literal para o termo. Resumidamente, podemos dizer que “lore” são os estudos tradicionais, o caminho de estudos e conhecimentos sobre um tema construídos no curso do tempo. Você reparará um pequeno comentário indicando essa tradução.

Mórrígan estaria recrutando?
Is the Mórrígan recruiting?

Por Lora O’Brien. Tradução de Dartagnan Abdias.

Como parte do nosso anual Programa Intensivo de 6 meses [oferecido para a Irish Pagan School], eu respondo questões de estudantes que querem saber mais sobre a deusa irlandesa Mórrígan, com quem eu tenho tido uma sólida relação de trabalho por esses 15 anos agora… e os últimos 13 deles como Sua sacerdotisa.

Oito desses anos foram passados em serviço diário (e desenvolvimento profissional) administrando Seu principal sítio em Rathcroghan, Co. Roscommon (Irlanda), e guiando visitoantes para dentro (e com retorno seguro) da caverna conhecida como “sua adequada morada”; Uaimh na gCait, Oweynagat – a Caverna dos Gatos.

Eu vou dividir, ocasionalmente, algumas dessas respostas no meu blog pessoal.

Iníon Preacháin perguntou: “Por que você sente que Ela [Mórrígan] está mostrando tanto interesse em ‘recrutar’ devotos (na falta de termo melhor) neste momento?”

Bem, a resposta mais curta para isso é: olhe a sua volta. O mundo precisa dos devotos de Mórrígan, ou pessoas que estão fazendo o trabalho pela humanidade ou pelas comunidades.

A resposta mais longa é que não é apenas nesse momento. Ela tem feito isso a muito tempo, e ela está se preparando por um longo tempo, e de novo, essa é minha experiência. Mas a tradição [lore] também demonstra isso.

Todo mundo fala sobre a Mórrígan como uma deusa da guerra, e ela está totalmente envolvida com batalhas porque batalhas mudam a história e batalhas mudam as comunidades e guerras são travadas, resultantes de um quadro geral muito maior, e, na minha experiência, é desse quadro geral que Mórrígan se encarrega.

E eu penso (embora essa seja a minha experiência) que a tradição [lore] mostra isso: seu papel como profetisa ou deusa da profecia é parte muito mais integral, e também (eu diria “sua intromissão”, mas intromissão é a palavra errada) seu envolvimento em aparentemente pequenas coisas e pequenas histórias, que acabam desempenhando um importante papel nas batalhas que estão por vir ou no resultado de certas batalhas ou guerras que estão sendo travadas, e geram mudanças.

Ela é uma deusa de mudanças.

Hoje, nós precisamos de alguém que saiba o que está acontecendo, totalmente, e ela precisa de pessoas na terra fazendo esse tipo de trabalho – veja, ela pode liderar o cavalo até a água, mas não pode interferir diretamente… Quero dizer, ela interfere diretamente com pessoas, com indivíduos, mas ela não pode, por si só, mudar coisas em uma grande escala. Ela tem faz isso através dos indivíduos. E eu penso que é daí que vem o impulso do “recrutamento”, o que na verdade já vem de um bom tempo. Eu penso que isso se tornou global agora, mas não é novo.

Esse poema é um dos meus primeiros chamados por ela [leia o poema em inglês clicando aqui].

Foi escrito no Bealtaine de 2004. Está no livro “Irish Witchcraft” (Bruxaria Irlandesa), que foi meu primeiro livro, mas na verdade ela estava sendo chamada por muito tempo antes disso. Eu fiz tatuagens de corvos, por exemplo, antes desse poema ou do livro serem escritos. Ela está sendo chamada desde, eu diria, a virada do milênio. Desde os anos 2000, tem havido o encontro de muitas forças na Irlanda, de forma terrena e em torno dos sítios arqueológicos da Irlanda, e o trabalho que ela me deu para fazer aqui foi o de disseminar informações e ensinamentos reais, porque isso não estava acontecendo naquela época.

Durante a década de 1990, houve muita merda especificamente sobre as tradições irlandesas e a cultura irlandesa, e muito pouco disso era real. Todo mundo estava com medo dela, mas muito pouco sobre ela, e certamente nada de valor, estava realmente disponível para o público geral – não havia nem mesmo interesse e a compreensão sobre as fontes tradicionais e na literatura que nós temos são tão importantes para nós como pagãos modernos trabalhando com ela. Quero dizer, isso simplesmente não existia nos anos 90.

O a maioria dos pagãos de hoje é, acredite ou não, muito melhor instruído e muito mais versado nos materiais históricos do que a maioria dos pagãos daquela época. Eu acredito que isso se deva pela total disponibilidade de materiais com o advento da internet e os padrões elevados das publicações sobre o assunto – e sim, eles aumentaram, acreditando nisso ou não, você não gostaria de saber quão ruins as coisas costumavam ser. Havia uma enorme lacuna entre as pesquisas acadêmicas e o acesso que as pessoas poderiam ter a academia. Acadêmicos estavam muito distantes da comunidade pagã em geral, exceto em alguns casos isolados. E os acadêmicos eram os professores, jamais estudantes.

Então, o trabalho que ela me deu para fazer desde que me fisgou é o de tentar levar um pouco disso para as comunidades, e ensinar as pessoas da importância disso. Agora, eu não sou acadêmica, quero dizer, eu estudei psicologia, mas eu havia voltado como uma estudante madura. A única outra formação universitária que eu tenho é na universidade de Artes, então não importa, a menos que você seja um artista, como eu sou, ou era ao menos. Portanto, eu não sou acadêmica, mas uma das coisas que ela me colocou para fazer foi me focar na literatura e encontrar uma forma de traduzi-la. Eu não quero dizer traduzi-la do irlandês antigo – felizmente esse trabalho está sendo feito, mas esse não é o meu trabalho. Graças aos deuses eu nunca tive que ler irlandês antigo. Morgan Daimler está fazendo um excelente trabalho nisso, pobre Morgan, vamos fazê-la trabalhar até a morte antes que ela tenha todo o Ciclo de Ulster traduzido. E Isolde Carmody, que é metade da equipe da equipe da Story Archaeology, que você vai me ouvir falar muito sobre, tem feito excelentes traduções também.

Nenhum desses trabalhos estava sendo feitos naquela época, e o recrutamento que estamos vendo hoje é apenas um passo sobre isso. Foi justamente quando isso atingiu um tipo de massa crítica e começou a se espalhar pelo mundo. Para mim é por isso que ela está consolidando sua base na última década e nos últimos cinco ou mais anos as coisas se intensificaram.

Como sempre, tenho receio de estar projetando minhas próprias questões porque tudo isso tem sido minha experiência, mas então, quando comecei a viajar pela minha amada ilha e sair de casa pelo mundo a fora, ao invés de todo mundo vir até mim como na Caverna [referência a Uaimh na gCait, Oweynagat – a Caverna dos Gatos, onde Lora faz visitas guiadas], e através do Rathcroghan Heritage Centre (que é adorável e eu prefiro muito, tenho de dizer), eu detesto sair da Irlanda… Desde que eu comecei a sair e a sair pelo mundo, eu notei ao espelhar a experiência de muitas pessoas, e não apenas minha experiência, que este é o momento.

Algumas organizações (grupos) foram criadas nos últimos anos. O Coru Priesthood, por exemplo, e eu sei que alguns dos nossos membros de cursos iniciaram atividades sacerdotais no Texas e Connecticut, e, eventualmente, eu terei de começar um aqui na Irlanda. Eu não queria ter de fazer nada desse trabalho, para ser sincera. Se eu pudesse me safar sem fazer nada desse trabalho, eu certamente o faria e viveria uma vida muito mais fácil, mas meu próximo projeto será um sacerdócio aqui na Irlanda e eu não estou certa de como isso vai ser, ainda, mas antes disso eu tenho que fazer uma iniciação realmente séria, o que, de novo, eu tenho adiado porque é muito assustador.

Muito disso está acontecendo aqui, e é muito espelhado pelo mundo a fora. Eu penso que essa é a resposta para isso, para a questão “porque eu sinto que existe tanto interesse”: é porque ela preocupada com o quadro geral, e o quadro geral está bem ferrado no momento. Totalmente ferrado.

Qualquer pessoa que fez parte do programa intensivo na Irish Pagan School (ou que está lendo esse site) pode ver como o quadro geral está ferrado em tantos níveis diferentes (se você for em meu Facebook, você descobrirá isso rapidamente, se ainda não estiver ciente disso)… E a consciência é a chave. É através da educação que entendemos o trabalho que precisa ser feito em larga escala, mas também devemos fazer a nossa parte conosco mesmo.

Parte de buscar esse curso [essa deusa], espero, é fazer esse trabalho em si mesmo para que você esteja pronto para fazer qualquer trabalho que o mundo precise que você faça.

[Nota da autora: esse curso aconteceu antes do Brexit, e antes do Trump. E antes da Irlanda começasse a se levantar e liderar o mundo com tantos exemplos fantásticos de justiça social e empoderamento popular como o Referendo de Casamento Igualitário, o Projeto de Identidade Transgênera, e nosso Referendo para Revogar a 8ª Emenda – descriminalização do aborto. Apenas para sua informação].

[1] Draoí irlandesa, sacerdotisa e idealizadora de The Irish Pagan School.

Ávillys mac Mórrigan (Dartagnan Abdias)
Antropólogo, cientista da religião, druida, pagão e oraculista.

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