Quem é Cerridwen?

“Essas são umas das muitas ofertas que faço a Cerridwen:
As palavras que saem de mim, em honra a Antiga.
A atenção dos que as escutam, como se fosse sempre a primeira vez.
A alegria de ser a porta, o intermédio de muitos no encontro sagrado
Da morte com o renascimento,
Da ignorância com o aprendizado,
Do medo com a força. ”

Oração a Cerridwen escrita por Máh Búadach.

Cerridwen é uma deusa do Pais de Gales que aparece no conto “Hanes Taliesin” que compoem a coletânea de contos medievais “Mabinogion” na tradução feita por Lady Charlotte Guest publicada entre 1838 e 1849.

O mito em que Cerridwen aparece, apesar de ser dela, também é de outro personagem e leva o nome dele: Taliesin. O “Hanes Taliesin” ou “A história de Taliesin” seria a versão mitológica que explicaria o nascimento de Taliesin (534 – 599), conhecido como Chefe dos Bardos, autor do poema “Kadeir Kerrituen”, figura real que teria existido e prestado serviço a pelo menos 3 reis britânicos segundo o Historia Brittonum, outra coletânea de manuscritos que contaria a história e genealogia dos reis britânicos mas que não é plenamente aceito como verídico por utilizar elementos fantásticos e usar fontes de referência não confiáveis como a Bíblia e o poeta Virgílio.

Logo, Taliesin, se realmente existiu, era uma bardo tão fantástico que teria herdado sua habilidade dos deuses, seria um semideus. O que não é tão difícil de aceitar visto que esse assunto é comum a diversa histórias de heróis ou líderes reais ou mitológicos. O indivíduo com habilidades extraordinárias era abençoado pelos deuses, quando não era filho deles.

Segue abaixo um resumo do mito caso alguém não o conheça:

“Cerridwen, esposa de Tergid, dera a luz três crianças: Morvran, Creirwy e Affagdu. O filho mais velho era um rapaz comum, a menina era linda como a própria luz e o menino mais novo era feio como a escuridão. Temendo pela sorte do filho cacula, ela resolveu usar de seus conhecimento para produzir um encanto que desse a ele a inspiração e o conhecimento.

Durante um ano, ela cozinhou em seu caldeirão uma poção especial, que geraria três gotas de sabedoria e o restante seria veneno. Para este desafio contratou Morda, um velho homem cego, para manter o fogo sobre o caldeirão e Gwion Bach, um jovem rapaz, para mexer a poção enquanto ela ia e vinha acrescentando ervas a cocção.

Em certo momento, as gotas pularam do caldeirão diretamente no dedo de Gwion Bach que ao se queimar levou o dedo a boca, instintivamente, e assim absorveu os poderes da poção.

O caldeirão se partiu e o restante venenoso da poção se espalhou pelo chão. Sabendo agora de tudo, dos mistérios do passado e do futuro, e mesmo que não soubesse, Gwion temeu a ira de Cerridwen e fugiu.

Ao chegar no local da preparação, Cerridwen percebeu o que havia acontecido e partiu no encalço de Gwion Bach com a fúria pertinente aos deuses. Gwion se transformou em uma lebre veloz julgando conseguir escapar mas Cerridwen se tornou um cão de caça ainda mais veloz que lebre. Percebendo a aproximação, Gwion se jogou no rio e se transformou em um salmão, Cerridwen virou uma lontra e continuou a caçada. Gwion pulou do rio para o céu se transformando em um pássaro, Cerridwen se tornou um falcão e perseguiu Gwion. Cansado, ele viu uma pilha de trigo e se jogou nela tornando-se grão. Cerridwen transformou-se numa galinha preta, ciscou até achar e então engoliu o Gwion.

Mas ao invés da morte vir, o grão gerou uma nova vida na barriga de Cerridwen e ela planejou matar a criança assim que nascesse, porém nasceu um menino luminoso e ela não achou em seu coração coragem para cumprir seu plano. O embalou em um saco de couro e jogou ao mar, lançado a própria sorte.

Elphin, filho do Rei Gwyddno, era um príncipe infeliz e desafortunado que fora mandado pelo pai ao mar para pescar e ver se dali tiraria algo que lhe trouxesse boa sorte, o que eles imaginavam ser uma grande quantidade de peixe. Elphin nada conseguiu pescar a não ser um saco de couro. Quanto abriu, viu uma criança falante com um testa grande e brilhante e decidiu chamá-lo Taliesin e dessa forma a sorte sorriu a todos e Taliesin veio a se tornar o maior bardo de todos os tempos.”

Não é difícil perceber a quantidade de elementos simbólicos presentes nesse mito e a necessidade de um longo e apurado estudo para entendê-los plenamente. Entretanto, Cerridwen é uma deusa muito popular e é muito comum encontrar material descrevendo e explicando essa deusa, seu culto e suas correspondências.

Entretanto, muito do que encontramos escrito sobre Cerridwen, quando averiguado a fundo, evidencia a falta de embasamento dos autores e uma clara releitura moderna com toda a romantização que a cultura dominante patriarcal e cristã disfarçada de paganismo insiste em perpetuar. Aqueles que pretendem realmente compreender quem eram e são os deuses e deusas celtas precisam entender tanto o contexto em que as sociedades celtas viviam, o contexto que os autores viviam quando as informações que encontramos foram escritas e o contexto que vivemos hoje para podermos interpretar os mitos e as influências incrustadas neles para nosso próprio desenvolvimento hoje respeitando as diferenças sociais, históricas e culturais que nos separam dos povos que os originaram.

Cerridwen é uma deusa extremamente complexa assim como somos nós, seres humanos. Ao tentar reduzir a deusa a estereótipos ou conceitos pré-concebidos, não estaríamos na realidade reduzindo a nós mesmos? Se ela que representa todo o cosmos e suas transformações é reduzida a “anciã deusa da magia da lua”, sendo nós mesmos reflexos dessa grandiosidade, não estaríamos a nos diminuir também? Eu rezo a Cerridwen para que as pessoas se empoderem e percebam que elas possuem dentro de si mesmas todo o poder da criação tal qual os deuses, nossos ancestrais primevos. E quem sabe ao reconhecer toda nossa capacidade de criação, nós possamos finalmente nos inspirar em Taliesin e, aí sim, chamar a nós mesmos de filhas e filhos dos deuses e deusas.

Beijo no coração.

Máh Búadach
Druidesa da Tribo do Caldeirão das Ondas (Salvador/BA) e pesquisadora da cultura celta e do Druidismo.

O Livro de Buadach
https://olivrodebuadach.wordpress.com

Espiral das Deusas Celtas
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