Quem eram os celtas?

A palavra “Keltoi” apareceu primeiramente nos escritos de Hecateu de Mileto em 517 a.c. e Heródoto no séc. VI a.c., quando os gregos estavam estabelecendo colônias e contatos comerciais com os povos que viviam ao norte do Mediterrâneo. Inicialmente houve uma distinção entre os povos que eles (os gregos) chamavam de “Galatai”, povos da Gália, territórios hoje pertencentes a França, Bélgica, Alemanha e Norte da Itália, também abordado como Europa Oriental e “Keltoi”, os povos da região chamada de Europa Ocidental, compreendendo as populações que ocupava o Alto do Rio Danúbio na Alemanha.

Posteriormente, os termos “Keltoi” e “Galatai” foram sendo utilizados praticamente como sinônimos. A partir da definição grega, os romanos adotaram uma distinção diferente para esses povos latinizando o termo “Keltoi” para “Celtae” e dividindo os povos em: “Galli”, gauleses, as tribos que habitavam a região onde hoje é a França, “Belgae” os povos que se localizavam onde hoje é a Bélgica e de “Britanii”, bretões, os povos localizados na região das Ilhas Britânicas.

Podemos perceber e deduzir, tendo como base todo os dados já apresentados, que é errôneo pensar que o termo “celta” se baseia no conceito de “raça”, nacionalidade ou agrupamento genético, que implique em pureza racial; e se buscamos entender e conhecer os povos que hoje conhecemos como celtas devemos desconstruir alguns conceitos “modernos”, como bem ilustra o Olivier Launay em seu livro “A Civilização dos Celtas”:

“A sociedade céltica em toda sua pureza não era capitalista, pois ignorava o capital. Ela não era nem socialista, pois não reconhecia o Estado, nem anarquista, pois seus reis eram eleitos e sem poder real. Ela tinha um pouco de todos os sistemas. Ela era única em seu gênero”.

Outro ponto importante de se perceber é que o termo “Keltoi” ou “Celtae” chega ao nosso conhecimento a partir do relato de gregos e romanos, portanto não há uma certeza de que os próprios povos se chamavam assim.

Por volta de 1700, Edward Lhuyd, um estudioso galês, descobriu a relação entre a língua falada pelos povos chamados celtas e a sua própria língua galesa e foi adiante percebendo que as línguas modernas: irlandês, gaélico escocês, bretão, manês e córnico também compartilhavam dessa relação. Ele decidiu utilizar o termo “Céltico” para definir esse grupo linguístico particular.

Segundo Alexei Kondratiev, renomado autor, linguista e professor de línguas e culturas celtas, no seu trabalho chamado “Lorekeepers course” :

“As comunidades célticas são comunidades onde as línguas célticas são faladas. A cultura Céltica é a que é passada dentro dessas comunidades. Os Celtas são as pessoas que são membros de tais comunidades ou tem fortes laços com elas.”

Assim temos a definição mais corrente sobre o termo “Celta”: uma específica família de línguas, as comunidades que as falaram através da história e as tradições culturais passadas através delas.

Porém é preciso perceber que isso não significa que todas as comunidades de línguas célticas dividiam a mesma cultura. A organização tribal nas quais esses povos se dividiam entendiam a si mesmas como unidades políticas e sociais diferenciadas umas das outras, não percebendo entre elas uma identificação ou fidelidade ao conceito de nação unificada.

Para além das semelhanças, as diferenças eram notórias e as tribos celtas eram conhecidas por não aceitarem umas às outras, tornando os momentos de unicidade grandes eventos políticos causados por grande comoção como quando se levantaram contra Roma em momentos e lugares diferentes, como por exemplo na Lusitânia guiados por Viriato em 147 a.c., na França guiados por Vercingetórix em 53 a.c. ou na Grã-Bretanha guiados por Boadiceia em 60 d.c.

Para entendermos toda a complexidade do que realmente significa socio-historicamente o termo “Celta” é imprescindível estudar com afinco a história dos diversos povos que hoje atribuímos o termo, sendo esse portanto o convite que eu deixo aqui para todas vocês.

Beijo no coração.

Máh Búadach
Druidesa da Tribo do Caldeirão das Ondas (Salvador/BA) e pesquisadora da cultura celta e do Druidismo.

O Livro de Buadach
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Espiral das Deusas Celtas
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